4.26.2014

Monte Barata


Passámos os dias 11, 12 e 13 de Abril pelo Monte Barata, situado no Tejo Internacional e adquirido pela Quercus em 1992.
Devo dizer que, além de muito bonito, é um local bastante interessante no que diz respeito à diversidade biológica.

Neste post vou falar um pouco sobre a área propriamente dita e,  nos próximos, irei destacar algumas espécies de invertebrados que tive a possibilidade de registar.




O Monte Barata, ao longo dos seus 420 hectares, tem variados habitats de cariz mediterrânico: a formação dominante é o montado de sobreiro (Q. suber) e azinheira (Q. rotundifolia), contando com matagais, rosmaninhais, galerias ripícolas; assim como olivais e pastagens.

O coberto arbustivo é constituído por giestas, tojos, estevas, mendronheiros, pilriteiros –  que quando em flor são excelentes para insectos polinizadores –  pereira-brava, incluindo ainda o tamujo (Flueggea tinctoria) que se trata de um endemismo ibérico.

Montado
Ribeira do Marmelal
Pilriteiro (Crataegus monogyna) em floração

Quanto à fauna, segundo o folheto informativo que nos ofereceram, no Monte existem identificadas até ao momento: 132 espécies de aves, 14 de mamíferos, 14 de répteis, 11 de anfíbios e 132 de insectos no geral (dos quais 94 são lepidoptera e 14 são odonata).
Claro que a lista dos insectos está muitíssimo aquém da verdadeira riqueza do local.

Aqui existem diversas espécies de vertebrados vulneráveis ou em perigo de extinção, tais como a cegonha-negra (Ciconia nigra), o abutre-preto (Aegypius monachus), o gato-bravo (Felis silvestris) e o morcego-de-ferradura-mediterrânico (Rhinolophus euryale).

Aegypius monachus. Esta ave necrófaga pode atingir 3 metros de envergadura e considera-se rara em Portugal, sendo que o lugar onde ocorre com maior frequência é, exactamente, o Tejo internacional.



3.23.2014

Ansião e Vale das Buracas do Casmilo

No dia 16 de Março fui dar um passeio até Ansião e, na parte da tarde, às Buracas do Casmilo, um local magnífico.

Este lepidóptero pertence à espécie Aphelia peramplana (Tortricidae). Os estados imaturos alimentam-se de plantas da família Asparagaceae, como por exemplo Urginea maritima na qual as lagartas enrolam as folhas para se protegerem. Esta foi registada em Ansião de onde também trouxe uma lagarta da mesma família que encontrei em Euphorbia characias.



Já no percurso das Buracas do Casmilo, parámos junto a um charco temporário e aproveitei para registar as P. perezi. Ao aumentar a foto, que tem pouca qualidade, reparei que estavam a ser sugadas por Ceratopogonidae.
 Esta família de Nematocera é constituída por espécies  pequenas que rondam entre 1 a 5 mm, são geralmente escuras e, na sua maioria, têm a capacidade de picar. Os adultos em muitos casos alimentam-se de néctar mas o sangue serve como fonte de proteína para a produção de ovos, pelo que são as fêmeas que picam. Podem alimentar-se do sangue de diversos animais, incluindo humanos e transmitir doenças.
As larvas desenvolvem-se numa grande variedade de habitats aquáticos, como charcos, rios, água acumulada em poças; havendo géneros que estão associados mais a habitats terrestres, incluindo ninhos de formigas.

Habitat (Charco temporário)

Deixo também aqui algumas das outras espécies que achámos. 

Lasiocampa quercus
Orchis conica
Polygonatum odoratum

3.15.2014

PNSAC e Salreu

Os campos já pululam de vida e há que aproveitar este tempo, por isso, no último dia 7 de Março fui até a Salreu e passei os dias 8 e 9 pelo Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, neste último com a companhia de Francisco Barros que por lá é vigilante da Natureza faz mais de duas décadas. Acompanhei-o na sua tarefa de monitorizar os algares onde nidificam as gralhas-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax).

Antes de mais, começo por deixar alguns registos de insectos de Salreu. Um deles é esta mosca espectacular pertencente ao género Bicellaria (Hybotidae).


Poecilus sp.
Possivelmente Sphenophorus sp. (Rhynchophorinae)
Passando agora ao PNSAC, aqui está um registo das gralhas. Trata-se de uma espécie inconfundível que ocorre em poucos locais e que, infelizmente, é rara. As da foto são parte do bando que estava acompanhado por muitos estorninhos (Sturnus unicolor). 

Pyrrhocorax pyrrhocorax
Uma das melhores surpresas que tive foi achar um feto que há muito procurava: Ophioglossum lusitanicum. Passa facilmente despercebido por causa da diminuta dimensão, porém, o seu aspecto é muito característico. Em Portugal ocorre outra espécie do mesmo género, O. vulgatum, também, claro está, na minha lista de espécies a observar. 



Um outro feto bastante diferente do último e que por cá, dependendo das localizações, não é comum.
Phyllitis scolopendrium
Arabis sadina (Brassicaceae) e Narcissus calcicola (Amaryllidaceae) são dois endemismos lusitânicos e estão presentes no Parque.

Narcissus calcicola
Arabis sadina
Também pude observar alguns fósseis marinhos, entre eles, este ouriço-do-mar de fortes espinhos.




2.24.2014

Mata da Margaraça (PPSA)

Quando pensei em visitar a mata da Margaraça, localizada na Serra do Açor, pesquisei um pouco sobre os seus valores naturais e, repetidamente, li que se trata de uma relíquia da flora autóctone da região centro. Sem dúvida que o é.
Numa zona cada vez mais alterada por monoculturas e espécies invasoras, esta mata é um precioso reduto de biodiversidade.

Foi muito agradável percorre-la e embrenhar-me por entre as árvores, pisar a densa manta morta, atentamente descobrir os mais interessantes seres vivos (incluindo a espécie que motivou a saída). Enfim, apenas lembrar-me de que é um espaço tão pequeno e rodeado por zonas tão modificadas, pôde minimizar a alegria.

O estrato arbóreo deste bosque é dominado por Quercus robur e Castanea sativa mas a flora em geral, incluindo outras árvores e arbustos, é bastante diversa: Prunus lusitanica, Corylus avellana, A. unedo, Ilex aquifolium, Viburnum tinus, uma infinidade de fetos, muitas Primula acaulis em floração, Fragaria vescaViola riviniana...

Ilex aquifolium
Rhamphomyia sp. a polinizar Saxifraga granulata
Inúmeros líquenes e musgos cobrem totalmente os troncos das árvores. Pode observar-se, entre outros, Lobaria pulmonaria e Usnea sp.


Os excrementos e cadáveres funcionam como microhabitats instáveis e efémeros que, em pouco tempo, congregam e suportam diversos seres vivos, sobretudo dípteros e coleópteros, dos quais Trox perlatus, muito comum por esta altura, é um exemplo.

Trox perlatus sobre o cadáver de um pequeno mamífero
Este fungo saprófita de intensa cor azul tem distribuição mundial. Os Collembola quase passam despercebidos...


Plectania melastoma, um outro fungo bastante diferente mas igualmente bonito.


E, para terminar, uma larva de Salamandra salamandra.

As restantes fotos estão aqui.




2.15.2014

Saída de Campo a Cantanhede

Hoje foi dia de saída de campo com a AOSP e foi em geral bastante agradável, com largos períodos de sol e temperaturas amenas (apesar de não termos escapado a algum vento gelado e aguaceiros no final da tarde).

Visitaram-se duas zonas tipicamente calcárias e pedregosas, ambas pertencentes a Cantanhede, cuja flora é constituída por diversas plantas, das quais destaco Quercus lusitanica e Q. faginea,  Pinus pinea, Olea europaea var. sylvestrisPistacia lentiscus, Crataegus monogyna, Lonicera spp., Eryngium dilatatum, Ruta montana, Rumex spp., Helichrysum sp., Thymus spp.,  densos tapetes de Sphagnum spp. (além de líquenes igualmente vistosos como Cladonia spp.) e, o que mais me fascinou: um grande número de espécimes de Iris subbiflora.  Na segunda população que encontrámos, alguns exemplares já estavam em floração e, naquele momento, eram sobretudo polinizados por Episyrphus balteatus.

Iris subbiflora


Zambujeiro,  Olea europaea var. sylvestris


Quanto às orquídeas, havia muitos exemplares de Ophrys pintoi – a miniatura da O. fusca que refiro neste post –  em ambos os locais que percorremos, tanto já com flor como apenas as rosetas.  Algumas Ophrys tenthredinifera também já davam sinais de em breve entrarem em floração.
As restantes espécies estavam ainda sem pedúnculo, tais como a Neotinea maculata,  o que presumimos ser Aceras anthropophorum e possivelmente também Ophrys apifera.

Ophrys tenthredinifera















Ophrys pintoi
Já quase no final, encontrei uma tentativa de cópula de Brachycerus sp. Curiosamente, a fêmea estava já morta (e não é por fingimento como no caso do macho)...



2.06.2014

Tive uma breve pausa nos exames e passei o fim-de-semana de 25 e 26 de Janeiro por casa. Claro que aproveitei para passar o meu tempo livre no campo.
Os campos já começam a estar floridos e a Primavera parece estar cada vez mais próxima. Mal posso esperar! Entretanto, estas chuvas são muito úteis, como para os charcos temporários.
O seguinte foi registado na zona de Tomar, na Primavera passada e, para além de uma miríade de invertebrados, é também habitat de Triturus marmoratus e Lissotriton boscai.

1.20.2014

Na noite de 18 de Janeiro, que foi bastante chuvosa,  fui até à Figueira da Foz para ver anfíbios e fiquei muito contente com a diversidade e quantidade de indivíduos que encontrámos.
Um grande número tentava atravessar a estrada, pelo que saímos frequentemente do carro para daí os retirar, aproveitando ainda para fazer alguns registos.


O primeiro que vimos foi este espectacular Bufo bufo com uma coloração que nunca tinha visto até agora.
























Depois, vi pela primeira vez o Triturus marmoratus pygmaeus (que conta com o estatuto de espécie em Espanha). É bastante mais delgado do que os T. marmoratus que existem na minha zona, é muito bonito.

Fêmea de Triturus marmoratus pygmaeus















Em zonas alagadas e charcos temporários junto à estrada era possível ouvir vários Pelodytes punctatus. Contudo, na época de reprodução não é fácil detectá-los, uma vez que se mantêm com a extremidade da cabeça fora de água e, quando nos aproximamos, ficam silenciosos.
Após algumas buscas achámos os primeiros exemplares, deixo aqui a foto de um deles com o caracol Portugala inchoata por trás.













Encontraram-se também vários D. galganoi, E. calamita, P. cultripes e P. waltl (um dos meus favoritos e que tem a incrível capacidade de projectar as costelas quando importunado).

Juvenil de Discoglossus galganoi

Pelobates cultripes


A lista de espécies (8 no total):
Bufo bufo
Discoglossus galganoi
Epidalea calamita
Pelobates cultripes
Pelodytes punctatus
Pleurodeles waltl
Salamandra salamandra
Triturus marmoratus pygmaeus

Por fim, para mostrar um pouco do que vimos para além dos anfíbios, termino com esta lagarta que pertence à família Noctuidae e que foi encontrada numa zona alagada a poucos centímetros da água. Deixei-a noutra zona mais seca.




12.23.2013

Welcome Winter

No dia 22 de Dezembro, participei numa armadilhagem para borboletas nocturnas na Serra da Lousã. O local, que desconhecia até à data, foi o Terreiro das Bruxas. Como já chegámos de noite não pude observar muito bem o meio envolvente mas, quanto ao que pude ver, é um habitat dominado por Pinus pinaster, com vários espécimes de Castanea sativa e de Quercus robur, além das invasoras Acacia spp. É de referir, aliás, que a Serra da Lousã se encontra deveras afectada pelo problema das espécies invasoras.

A temperatura esteve relativamente amena para a época do ano (aproximadamente 6 ºC) e observámos, ao todo, 9 espécies diferentes. Entre elas, 10 machos de Poecilocampa populi, um lepidóptero típico desta altura e que em inglês tem o nome de December Moth. A Serra da Lousã é uma nova localização para esta espécie.

A lista de espécies é a seguinte: 
Agrochola lychnidis (1)
A. blindaensis (6)
Epirrita sp. (4)
Watsonala uncinula (2)
Chesias legatella (1)
Poecilocampa populi (10)
Conistra vaccinii (1)
Pachycnemia tibiaria (1)
Choloclysta siterata (aprox. 8)

Tenho a agradecer ao Pedro Pires e à Tatiana Moreira pela oportunidade em os acompanhar nesta saída que, de resto, se revelou muito prolífica. Sem dúvida que armadilhar nesta altura do ano compensa.

Claro que nem tudo foram lepidópteros: aproveitei para explorar um pouco em redor e encontrei 2 S. salamandra e um Carabus cf. amplipennis, cujo registo aqui fica.




12.07.2013

Na continuação do post anterior, aqui ficam mais algumas imagens do mesmo local. Desta vez procurei especialmente por lagartas de Charaxes jasius. Encontrei-as nos medronheiros mais expostos, situados na orla do bosque.



Como que a comprovar, um pouco, a diversidade que os medronheiros atraem:


Um dos muitos Bombus sp. que se alimentavam nas flores de A. unedo.
Ovos de, possivelmente, Coreidae. No verso de uma folha de A. unedo

Dois dos macrofungos encontrados no mesmo dia:

Uma pequena Mycena sp.
Laccaria cf. proxima

11.25.2013

  Perto de casa tenho um pequeno bosque onde dominam Quercus suber e Quercus coccifera, havendo arbustos como Arbutus unedoPistacia lentiscus, Myrtus communis, ... Exceptuando as ainda mais diminutas galerias rípicolas, é um dos únicos locais arborizados e sem impactes visíveis de origem antropogénica da minha zona; é por isso também um dos meus favoritos.

Aspecto geral, é possível ver os frutos de A. unedo.
Nesta altura,  surgem as frágeis Acis autumnalis e uma considerável diversidade de macrofungos, como as Russula spp, Boletus spp, Ramaria spp,... que em conjunto com os frutos caídos dos medronheiros pintam o solo de diversas cores.



No último dia, dediquei algum tempo aos macrofungos e, na maior parte, encontrei invertebrados a alimentar-se do carpóforo. Estavam vários diplópodes na base do pé de um Lactarius sp., dezenas de Collembola noutro; Staphylinidae em Russula spp. em decomposição, etc...

Polydesmus sp. a alimentar-se da base do pé de Lactarius sp.